Terapia,
grupos de anônimos, medicamentos e ajuda de Deus; especialistas dizem que
melhor saída é aquela que dá certo.
Não há um caminho
único para quem quer se livrar da dependência. A ajuda mútua dos grupos de
anônimos, os divãs de psicoterapeutas, os remédios recomendados por psiquiatras
e até os bancos das igrejas podem ajudar uma pessoa a se recuperar do vício.
Para Jair Mari,
professor de psiquiatria da Unifesp, que atende dependentes químicos, a
depressão muitas vezes leva algumas pessoas a buscar as drogas. "Para
esses casos, o auxílio de remédios e a psicoterapia podem solucionar o
problema", explica.
Antidepressivos
podem, ainda, funcionar como um substituto para a cocaína. Alguns deles contêm
bupropiona, substância que, segundo Mari, produz efeitos semelhantes aos da
cocaína.
No entanto, o uso de
remédios não é unanimidade entre médicos. O psiquiatra Ronaldo Laranjeira,
diretor da Uniad (Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas) da Unifesp, afirma
que, "se esse uso fosse simples, o problema da droga já estaria
resolvido".
Uma nova alternativa
para o tratamento da dependência de cocaína poderá ser o uso de vacinas. Uma
companhia inglesa anunciou nesta semana o sucesso de testes, em humanos, de uma
vacina que evitaria a ação da cocaína no cérebro. Sua utilização, no entanto,
ainda vai depender de novas experiências.
Anônimos
Enquanto a vacina não
vem, os grupos de ajuda mútua são uma alternativa. Formado em 1935 nos Estados
Unidos, os Alcoólicos Anônimos, segundo a própria entidade, têm cerca de 2
milhões de membros no mundo. Só na cidade de São Paulo, existem mais de 200
grupos de ajuda. Além dos alcoólicos, há grupos para narcóticos, comedores
compulsivos, dependentes de sexo, entre outros.
Neles as pessoas
trocam experiências e encontram apoio de outras com os mesmos problemas.
"O grupo funciona como uma segunda família", diz o sociólogo Leonardo
Mota, autor de um livro recém-publicado sobre o AA.
As técnicas dos
anônimos, no entanto, são alvo de críticas. O psicanalista e psiquiatra
Maurício Gadben, que defendeu tese de doutorado sobre dependentes na Unicamp
(Universidade Estadual de Campinas), critica os anônimos por só atacarem os
sintomas da dependência.
O psiquiatra Jairo
Werner, coordenador do grupo de estudos sobre tratamento de alcoolismo da UFF
(Universidade Federal Fluminense), diz que falta aos anônimos diagnóstico
médico. "Muitos dos que procuram esses grupos precisam de auxílio
especializado", diz.
Ainda assim,
profissionais de saúde não questionam a validade dos anônimos. Ao contrário,
recomendam aos seus pacientes que os freqüentem. O psiquiatra Arthur Guerra de
Andrade, presidente do Grea, é um deles.
A psicóloga Maria
Paula Oliveira, uma das fundadoras do Ambulatório do Jogo Patológico do Proad
da Unifesp, diz que os anônimos tiram dos dependentes o sentimento de
onipotência.
Segundo ela, os
dependentes costumam se considerar quase deuses. Nos grupos, eles precisam
admitir que são incapazes de controlar seus impulsos e que um "poder
superior" os orienta.
Oliveira diz que esse
"poder superior" não é, necessariamente, Deus. Leonardo Mota concorda
com a psicóloga. Para ele, os integrantes de grupos anônimos podem entendê-lo
como quiserem.
Religião
Outro caminho para
abandonar a dependência é a religião. Muitas delas oferecem tratamentos para
diversos tipos de vício. A Igreja Católica, por exemplo, criou, em 1998, a
Pastoral da Sobriedade. A entidade segue o modelo dos 12 passos (veja quadro ao
lado).
O professor de
sociologia da USP Flávio Pierucci afirma que as religiões usam o tratamento
para conquistar fiéis. "É o mesmo que converter presos em cadeias."
Coordenador da
Pastoral da Sobriedade em São Paulo, d. Irineu Danelon admite a catequese na
pastoral e é taxativo: "Não há recuperação sem evangelização".
Participante das
reuniões da pastoral desde a fundação, Valmir, ex-dependente de cocaína, diz
que só conseguiu abandonar as drogas com a religião. "Freqüentei reuniões
do Narcóticos Anônimos, mas vi que ficaria dependente delas. Só com Deus
consegui ser independente."
Algumas pessoas trocam
uma compulsão por outra, tornando-se fanáticas por religião, segundo o
psiquiatra Edmundo Maia, diretor de uma clínica que atende usuários de drogas e
outros compulsivos.
D. Irineu Danelon
admite que algumas pessoas exageram por falar demais sobre religião. "As
pessoas devem agradar a Deus pelo estilo de vida que levam e não apenas pela
palavra."
Divã
Enquanto nos anônimos
e nas igrejas os dependentes contam experiências sem ser questionados, nos
tratamentos psicoterápicos, eles falam de assuntos que nem sempre abordariam
sem estímulo. "Nas terapias de grupo, todo mundo conversa, se questiona. O
terapeuta sempre aponta questões", afirma a psicóloga Maria Paula
Oliveira.
Há duas diferentes
abordagens para o tratamento psicoterápico, segundo a ONU: a behaviorista e a
psicodinâmica. Na primeira, o terapeuta acredita que o comportamento compulsivo
decorre de falha no aprendizado. O paciente precisa aprender a se comportar de
outra forma.
Werner, da UFF,
compara o aprendizado ao de línguas. "O dependente precisa aprender outra
linguagem que não a das drogas."
A psicodinâmica
aborda a questão do vício como reflexo de conflitos internos surgidos na
infância e que precisam de solução.
Eliseu Labigalini,
psiquiatra do Proad, afirma que a terapia é longa e, às vezes, difícil, por
obrigar o paciente a se questionar.
Internações
Quando o dependente
já tentou parar de várias formas e não conseguiu, a saída pode ser a
internação, afirma José Galduróz, psiquiatra do Cebrid, da Unifesp.
Ela, no entanto, não
significa o fundo do poço. Segundo José Antônio Zago, psicólogo do Instituto
Bairral (clínica psiquiátrica que tem 56 leitos destinados a dependentes), boa
parte dos internos tem emprego e apoio da família.
O jornalista Carlos,
por exemplo, ainda trabalhava quando foi internado pela primeira vez em 2001.
Só em 2004, por causa de uma recaída, perdeu o emprego.
As clínicas combinam,
em geral, o uso de remédios, com psicoterapia e terapia ocupacional. Algumas
usam os 12 passos dos anônimos e o auxílio da religião.
De todos os
tratamentos, dizem os especialistas ouvidos, o melhor é aquele ao qual o
dependente se adapta, que pode ser a simples vontade de parar ou todos juntos.
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